Editorial

Contador de visitas

Dicionário/Enciclopédia

Palavra:
 

Previsão do Tempo

Usuários pelo mundo

Santa Quitéria Segundo o Historiador Antônio Bezerra

 

RELATO DO HISTORIADOR ANTONIO BEZERRA

Às três horas pusemo-nos em marcha.
Daqui em diante o terreno se aplaina e ao fim de 30 quilômetros mais ou menos começam a aparecer elevações insignificantes.
Ao intenso calor da tarde vem substituir a calma e serenidade da noite, para o que não pouco concorria o esplêndido luar.
A natureza morta parece que se animava, se embelezava, se decorava ao mágico efeito da sua luz suave e benéfica.
O desejo de chegar me fazia marcha adiante.
Em certa ocasião interrompe o curso de minhas reflexões a voz estridente da mãe-da-lua (Caprimulgus grandis), pássaro bem conhecido da família dos Insessores, grupoStrisor, que segundo Wappaeus se filia à subfamília  americana dos Prionitidae.
Quem não estremeceu alguma vez ao ouvir à noite, no maio da mata, aquêles sons monossilábicos, espaçosos, noturnos, que se produzem em escala descendente, e que infundem em certo terror?
Minutos depois pedia agasalho na fazenda Santa Maria, do Coronel José Antonio Moreira da Rocha.
No dia seguinte separei-me dos companheiros, e parti protegido ainda pela luz dúbia da madrugada.
Atravessei um riacho afluente do rio Macaco, contornei um grande cercado, tendo sempre daí em diante a serra das Cobras à direita, que se estende mais ou menos próximo da estrada cerca de 12 quilômetros.
A alguns passos à esquerda vê-se a fazenda Santa Quitéria, do finado Dr. Francisco de Paula Pessoa.
É uma das mais importantes destes sertões, não pelas terras, ao menos por seu prédio magnífico, que não é inferior ao melhor de qualquer vila.
O espaço percorrido no trajeto da manhã era plano, igual e tapetado de ricas pastagens, que nutrem bem os gados.
Depois de três horas de marcha acelerada venci os 30 quilômetros, que medeiam entre Santa Maria e a vila de Santa Quitéria.

* * *

Assentada sobre a margem ocidental do rio Jacurutu, numa planície em forma de ângulo que descreve o rio deste lado, conta a vila de Santa Quitéria umas 120 casas distribuídas na larga praça, em cujo centro se acha a igreja-matriz, em três ruas, das quais a melhor e mais bem edificada corre à esquerda do templo em rumo de sul a norte, e ainda em outras como largos intervalos em sentido contrário atravessando estas.
Há aqui alguns prédios excelentes, construídos ao gosto moderno: portas altas e frentes terminadas em cimalha.
Um edifício elegante que se vê ao lado oriental da praça, destinado a servir para câmara municipal, está abandonado e tem necessàriamente de cair à falta de um pequeno auxilio dos cofres provinciais, visto como faltando-lhe a coberta, as chuvas têm estragado as madeiras do andar superior e ameaçam as paredes.
É pena; não há melhor em outra parte.
Está traçado com todas as regras de arte.
O mercado, no extremo sul da rua mais extensa, não está ainda acabado, mas , no que se há feito, apresenta quartos de frentes elevadas, que prometem na conclusão um excelente edifício.
Perto daqui se levantam diversas casas, pelo que noto que a vila se estende para este lado.
É a primeira localidade que se lembrou de construir depois da seca de 1877, não sei se por lhe abundarem os recursos ou por influência de moradores de outros lugares a vila apresenta perspectiva alegre, e como sertão o seu território é um dos mais produtores de Província.
Tem duas escolas de instrução primaria para ambos os sexos, regularmente freqüentadas, e na Barra do Macaco, 60 quilômetros ao sul, o Sr Raimundo Minervino Ramos, moço habilitado, mantém aí uma a seu esforço, onde recebem instrução numerosos alunos.
A sua população é calculada atualmente em 10.000 almas, tendo tido antes da seca um terço mais.
As rendas provinciais arrecadadas pela Coletoria montaram no ano último a soma de 5:510$498 réis.

* * *
 
A comarca de Santa Quitéria foi criada pela Lei nº 1.551, de 4 de setembro de 1873, compreendendo os termos de Santa Quitéria e Tamboril.
Atualmente estes termos são independentes com juiz letrado, sendo o de Santa Quitéria criado pelo Decreto nº 8.742, de 18 de novembro de 1884, e o de Tamboril pelo nº 5.552, de 20 de fevereiro de 1874.
A comarca foi primeiramente Tamboril, depois transferida a sede para Santa Quitéria pela Lei nº 1.814, de 22 de janeiro de 1879, art. 1.º, 9, e ereta pela de nº 782, de 27 de agosto de 1856.
É comarca de primeira entrância (Decreto nº 5.641, de 16 de maio de 1874).

Foi criada freguesia por Decreto de 23 de março de 1823, a que se refere a Lei nº 224, de 4 de janeiro de 1841.
Tem dois distritos de paz: o de Santa  Quitéria, criado pela Lei Orgânica de 15 de outubro de 1827 e art. 2º do Cód. Do Processo, e o da Barra do Macaco, criado pela Lei nº 327, de 6 de dezembro de 1850.
Além destes, que são também distritos policiais, tem o do Vidéu, sobre a serra das Matas.
No município se encontram, a igreja-matriz da vila, criada por Decreto de 22 de março de 1823, e as capelas filiais da Barra do Macaco e do riacho Guimarães, a primeira no povoado cabeça do distrito do mesmo nome, e a segunda num pequeno arraial distante da vila 90 quilômetros ao nordeste.
Sua principal riqueza consiste na industria pastoril, mantida por 350 fazendas de gados e 90 agrícolas, na serra das Matas e Umburanas, onde se cultivam algodão, mandioca e cereais.
Exporta para a Capital e para Sobral muito gado, sola, couros salgados, courinhos, queijos, algodão e algum borracha (Jatropha sp) extraída da parte da serra das Umburanas, que extrema o termo pelo nascente, cujo leite é igual em qualidade ao do Amazonas e importa fazendas, estivas e objetos de luxo das mesmas cidades, e farinha de mandioca, rapadura e aguardente da serra da Ibiapaba e Meruoca.
Conta somente três açudes espalhados no município, sendo os demais insignificantes reservatórios que  secam quase sempre pelo fim da estação outonal.
O clima é, como o de todo o sertão, salubre e agradável.

* * *
Santa Quitéria deve seu começo ao português João Pinto de Mesquita, avô da mulher do Senador Francisco de Paula Pessoa, mãe do Senador Vicente Alves de Paula Pessoa, senhora respeitavl por Suas seletas virtudes; D. Isabel Geracina, avó do Senador Tomes Pompeu de Sousa Brasil, e João de Mesquita Pinto.
Este situou uma fazenda de gados no lugar em que se acha a vila, a qual se chama Cascavel, nome que ainda conserva um riacho que corre de nascente a poente, vindo desaguar na distância  de meio quilometro no Jacurutu.
Desejando o mesmo Pinto formar um povoado, fez doação do terreno encravado da curva que faz o rio neste ponto, estabelecendo a condição de que seus filhos teriam direito ao local preciso para suas habitações, cláusula que foi e ainda é observada.
Para patrimônio da igreja o Capitão-mor Antonio Pinto ofereceu as terras, onde se situou a fazenda, que ainda hoje existe como o nome de Santa Clara.
Os gados foram doados por diversos indivíduos, sendo o Coronel Vicente Alves da Fonseca o que mais contribuiu para a edificação do templo dedicado à Santa Quitéria.
Foi concluído sob a administração do padre Miguel Francisco de Oliveira, trabalhando nele  como pedreiro e carpina os irmãos Tomás Correia e Manuel Correia, um dos quais era avô do Ver. Lourenço Correia, que foi visitador na Província.
Relativamente ao patrimônio da capela do Guimarães, consta que em 1751 o cego Joaquim de Tôrres Araújo, morador no Recife, fizera doação de 250 metros de terras quadrados, e Manoel Madeira de Matos, e sua mulher D. Francisca de Albuquerque, igualmente de três quilômetros de terras, 60 vacas e sete éguas.
 
* * *

Ao penetrar na vila fui logo generosamente recebido pelo meu bom parente, o Professor Manuel Alexandre Lima, que dentro em pouco me arranjou a casa do finado vigário Francisco Manuel de Lima e Albuquerque, situada à face ocidental da praça.
Achei-me logo aqui perfeitamente agasalhado.
Logo em seguida me vieram ver e oferecer os seus serviços os cavalheiros, Dr. Francisco Barbosa Cordeiro, juiz municipal da Comarca e meu condiscípulo no Liceu da Capital, Coronel André Jácome, Tomes de Aquino de Sousa Catunda, Joaquim Gonçalves Magalhães Jinoca, e outros parentes do professor.
Não os esquece a minha gratidão.
Mal substituía o fato poeirento de viajante, sai à rua, levado pelo desejo de visitar o dedicado amigo e companheiro de infância, Dr. Paulino Nogueira Borges da Fonseca, que aquie viera pleitear sua canditatura a uma cadeira no Parlamento brasileiro.
Quem sabe, como eu, apreciar a inteireza de seu caráter, a magnanimidade de seu coração. Sua sinceridade no trato social, achará sem dúvida natural a afeição que lhe consagro, principalmente porque até o presente não se deixo corromper pelas artimanhas da política.
Um abraço foi o nosso primeiro cumprimento.
Passamos depois largas horas a falar dos entes que nos ficaram longe, dos motivos que nos arredavam da Capital, dos negócios da atualidade, de noticias do interior e do exterior, de viagens, de jornais, de estudos de aspirações, de desenganos, de mil ninharias enfim que dão certo prazer à palestra no seio da amizade.

 
* * *
A tarde vieram convidar-me para um passeio aos arrabaldes os amigos Manuel Alexandre e Jinoca.
Acedi da melhor vontade.
Logo na face setentrional da parca, lado do nascente, foi-me indicada uma casa velha, baixa, de pobre aparência, na qual havia nascido o Senador Tomás Pompeu.
Eu não cansava de admirar aquele casebre, que abrigara na primeira idade senão o maior gênio da Província, ao menos o seu melhor amigo.
Media-lhe a altura de com a veneração de quem tem presente um objeto sagrado.
Vicissitudes da vida!
Do quieto remanso deste retiro, abrigado a um canto da aldeia, ergueu-se o moço sertanejo à sumidade das posições sociais e da imortalidade.
Todos lhe devemos reconhecimento, pois que enquanto o animou o sopro da vida, foi sua incessante aspiração pugnar pelos interesses e prosperidade da terra natal.
Na Câmara Temporária e no Senado sua palavra era continuamente ouvida, exigindo um melhoramento, um beneficio, uma verba, que lhe desse azo a apresentar os recursos de sua riqueza natural; e, se nem sempre o conseguiu por esse meio, torno-a mais respeitada e conhecida pela divulgação dos seus escritos.
Nem a posição, nem a fortuna o transviaram do dever que se impusera de a amar do imo d’alma, muito embora açoitada das calamidades da seca; pelo que lhe cabe a glória de ter satisfeito o pensamento de Camões na estrofe estampada na primeira página do seu Compêndio de Geografia:

Eu desta glória só fico contente,
Que a minha terra amei e a minha gente.

Foi nisto sincero até o fim da vida.

* * *

Adiante notei que as margens do rio são revestidas de arbustos verdejantes, e que a água se encontra em todo o leito quase à flor da terra.
Esta água pura, cristalina, passa com justa razão por ser a mais saborosa da Província, e de feito, à exceção da da Serra Grande, que não é menos fina, nenhuma deixa impressão mais agradável ao paladar.
Tive ocasião de a experimentar por mim mesmo.
Continuando o passeio, encaminhamo-nos ao sitio que pertencera ao finado Padre Francisco Manoel, onde fui surpreendido pelas obras feitas de alvenaria para conter as águas que recuam cerca de um quilômetro.
Ainda não tinha visto reservatório maior em meu caminho, e não me consta que para o norte da Província se encontre outro com tais proporções.
É realmente uma obra gigantesca, na qual deve o seu antigo proprietário ter despendido uma fortuna.
Acresce ainda que se acha a poucos passos da vila, prestando aos moradores grande serviço, já pelo fornecimento dágua, já pela abastança de peixe.

* * *
O que mais me impressionu e impressionará a qualquer viajante que chegar a estas paragens, foi a excessiva, a fabulosa, a incrível quantidade de pombas, conhecidas do vulgo pelo nome de avoantes, que em bandos de milhares cobrem a região por onde passam.
Se pousam sobre qualquer árvore, partem-se os galhos ao peso do numero; se descem para beber em algum açude, esgotam-no em poucos dias; e quando se assustam e tomam o vôo simultaneamente, produzem o ruído igual ao de uma locomotiva em marcha acelerada.
Da frente de minha casa, todas as tardes eu as via passar de sul para norte, desde cinco e meia até à noite, como uma coluna cerrada que não deixava o mínimo sinal de interrupção.
É impossível calcular-lhe o numero, e mesmo para aquele que observa a nuvem compacta destas aves, da subordem das Galináceas, fica uma espécie de receio em referir o que viu, tal é a dificuldade de ser crido.
Chega a época da postura, elas escolhem alguma mata, deitam pelo chão, sempre voando em massa precipitada, quantidade tão prodigiosa de ovos, que os moradores da circunvizinhança vêm apanhar cargas e cargas, afluindo também ao lugar, a que chamam pombal, animais de toda espécie que nesses dias se repastam largamente; e apesar de toda a destruição, não reduze, a abundância dos mesmos ovos, dos quais expostos à temperatura elevada, produzida pela ação dos rios solares, dias depois nascem os filhotes, que quase logo continuam a marcha dos pais.
Levou-me a curiosidade até o rio Curu para o fim de ver apanha-las nos fojos, espécie de esconderijos cobertos de areia à beira do poço, com espaço dentro e pequena fenda horizontal na flor dágua; de sorte que tentando-se em multidão sobre essas armadilhas, quando se debruçam para beber, oque fazem afogando toda a cabeça, os indivíduos escondidos no interior puxam-nas pelo bico, sem que as outras pressintam, e torcendo-lhes num segundo os pescoços atiram-nas mo espaço vazio até enche-lo.
Na véspera da minha chagada haviam apanhado 18.350, e no dia 31.617.
De volta à vila encontrei diversos comboios, vindos da Serra das Matas, transportando destas aves preparadas, os quais se dirigiam à serra de Baturité, onde é vendido o milheiro a 12$000 réis.
Por toda parte se persegue as pobres avoantes, que aliás prestam grande auxilio à pobreza, e, no entanto, apesar da guerra que se lhes faz, parece que cada vez mais aumentam e produzem.
Observei que são lançadas fora as penas, as quais se fossem aproveitadas talvez tivessem bom emprego no estrangeiro, servindo aos misteres da colchoaria, e por conseguinte ao valor da carne juntaria o sertanejo outra renda, que pouco ou nada lhe custou adicionar à sua fortuna.
Não pude, como desejava, fazer um estudo detido sobre a origem e hábitos destas  aves columbae; no entanto é convicção minha que são originárias desta Província, que pelo menos é nela que se reproduzem, e se daqui se ausentam, por breve tempo, seu caminho deve ser pelo vale que se estende para oeste até Minas e Goiás.
O Príncipe de Neweid escreve na sua Voyage au Brésil, que depois de ter transposto as montanhas do norte de Minas e penetrado nos campos gerais da Bahia, encontrara grandes bandos de pombas, as quais denominou cientificamente Columba leucoptera.
Esta classificação já havia sido dada por Edwards ao pombo pardo das Índias.
Parece que lhes caberia mais propriamente o nome de Columba cearensis, pois que da Histoire naturalle générale dês pigeons, de Temminck, e da Synopsis of Birds, de Latham, nenhuma descrição destas aves se encontra, cuja migração e modos de vida se assemelham aos da de tratamos.
Os pombos viajantes da América do Norte, que foram indevidamente classificados, o macho sob a denominação de Columba migratória e a fêmia sob a de Columba canadensis, e que Temminck diz que “à Pépoque de leur migraton leur assaim nombreaux, dont l’étendue occupe quelquefois deux lieues de terrain sur un 
quart de lieue de targeur, obscurcit Pair. Á la chute du jour, toute une troupe se perche en peloton serré sur les arbres, don’t les branches plint sous le poids”,apesar desses pontos semelhantes, nada tem de comum com as nossas, que são menores, além de outras diferença relativas à conformação do corpo e cores das penas.
Delas não consta que os filhos nasçam por incubação do sol, como acontece às do Ceará.
Digo do Ceará, porque são pouco conhecidas das outras Províncias à exceção da zona circunvizinha ao vale que Neweid chamou Araxá, se é que seguem essa trilha, o que não está provado; pois que em todo o ano são vistas ora em um, ora em outra município, estendendo sua migração para este somente até a parte oriental da Província do Piauí.
Insisto em supô-las originarias do Ceará, porque, sendo esta Província uma das mais habitadas, quase sem matas  pelo estrago dos roçados, onde as águas desaparecem findo o inverno em conseqüência da grande inclinação do solo para o lado do oceano, e sofrendo elas a mais cruel perseguição dos habitantes em grande parte miseráveis, é aqui que formam os pombais e se demoram no tempo mais seco.
Nos anos de 1877 a 1879, que a população do interior se refugiou à Capital e que elas deviam emigrar por falta d’água, foi quando mais se multiplicaram e apareceram em quase todas as localidades, chegando até aops arrabaldes da mesma Capital.

* * *

Constando-me que na parte ocidental da serra das Cobras, em terras da fazenda Santa Maria, havia uma gruta de fácil acesso e bastante curiosa, resolvi visitá-la.
O amigo Tomás Catunda ofereceu-se para me fazer companhia.
Assim, dispostas as coisas, transportanmo-nos numa manhã a Santa Maria, levando Antônio Guida o indispensável para a viagem de um dia.
Recebeu-nos com amabilidade o velho João Bezerra, vaqueiro da fazenda, e tendo feito reunir alguns vizinhos para a fim de engrossar o pessoal que devia openetrar na gruta, abrigo ordinário de onças, partimos em número de 14 homens, armados de foices e espingardas. 
À luz de inúmeros fachos transpusemos o grande salão. 
Logo à entrada atraiu nossa atenção a presença de curiosos objetos formados pelas estalactites e estalagmites, tronos, confessionários, púlpitos, castiçais, arrendados, colunatas, etc., mas infelizmente sem as magníficas cintilações das concreções calcárias ao reflexo das luzes, devido às dejeções dos morcegos (Vespertilio murinusque) que amarelecem a brancura dessas lindas pedras, e tiram-lhes a forma elegante eo brilho.
Seria uma gruta explêndida, atrativa e interessante, se a esterqueira dêsses hemófilos não a tornasse insuportável, diminuindo a beleza das delicadas figuras que costumam fazer as estalactites em iguais cavernas.
Regressamos às três horas.
Todo serrote em redor é coberto de uma árvore de folhagem permanete, verde-escura, conhecida pelo nome de pau-de-mocó (Machaerium), que cresce entre as pedras, a qual durante o tempo de sêca prestou grande aucílio à pobreza pelo aproveitamento dos tubérculos.
Diz-se que a madeira, sendo queimada o fumo, cega a quem se espõe à sua ação.
Soube aí que o mel da abelha feito de néctar das flôres desta árvore é de má qualidade e msmo tóxoco.
Por ser servido de um pouco de mel fabricado pelo poliste lecheguana (chartigas brasiliensis), correram perigo de vida Mr. Saint’Hilaire e o seu criado.
À vista disto é a flor de árvores tais como as espécies de Paulínia e Thingio(phoecarpus campestirs), que se deve atribuir o pernicioso efeito e não ao trabalho das abelhas e vêspas.
Felizmente, passa como certo que os paus-de-mocó florescem pouco ou nem sempre dão flôres.

* * *

Em caminho apanhamos lindos grupos de cristais côr-de-rosa e quartzos de formas variadas e transparentes.
Há por aqui pedras desssas formosíssimas.
Apesar do exessivo calor do sol estendi a minha excursão até à margem do riacho, que passa em frente da casa.
De longe noteilarga cinta ferruginosa ocupando o leito e barrancas, que aliás são pouco elevadas, e ao aproximar-me verifiquei que eu pisava uma imensa mina de ferro.
Êste metal se encontra aqui em grandes massas, oxidado em forma oligísca, e o meu companheiro, um filhodo velho João Bezerra, informou-me que algumas pedras levadas à forja, dão de 80 a 90% de ferro puro.
Eu trouxe duas amostras, apanhadas sôbre a terra, pelas quais se pode ajuizar da riqueza e abundância da mina.
Era noite quando nos recolhemos à vila.

***

O mucicípio de Santa Quitéria sofreu também o assalto dos malfeitores.
No fim do século passado, um grupo de indivíduos da família Ferro invade a povoação para o fim tomar à fôrça de armas do lar paterno uma môça de rara beleza, com quem um dêles pretendia casar.
Encontrando a mais enérgia ressitência da parte dos Pintos, parentes dos Ferros, atacam a vila com intenção de roubar os mais abastados moradores, o Capitão Ludovico Pinto de Mesquita e outros; mas num renhido tiroteio, tendo dois homens mortos e muitos feridos, fugiram precipitadamente.
Da parte dos habitantes houve sòmente um ferido, não se dando grande carnificina porque, avisados com antecendência, se entricheiraram e bateram-se com vantagem.
Ainda hoje se vêem as cicatrizes feitas por balas em uma das portas laterais da igreja, para onde se refugiou a maior parte dos moradores.
Felizmente nunca mais voltaram.
Os filhos dêste município são deíndole dócil e morigerada, e a prova está em que se passam anos sem que funcione o júri à falta de criminosos, e diz-se que depois que a povoaçõa passou a vila apenas têm aparecido duas ou três causas cíveis.

***

Uma observação me sugeriu a espécie cavalar que, não sei por que, é mais forte nesta Província doque em outra qualquer parte do Império.
Ela tem degenerado em tamanho e figura, como nota o Dr. Burlamáqui; mas deve ter sido oriunda de ótima raça, para que depois de três séculos se conserve ainda com tão boas qualidades.
Lembro-me que quando referia em S.Paulo que qualquer dos nossos cavalos corre em serviço de gado o dia inteiro; que suporta cargas de 150 a 180 quilos, fazendo longas viagens de centenares de quilômetros, sem muda, noite sem que minha asseveraçõa era recebida com certa frieza, mas logo reconheci que o paulista tinha razão de duvidar; porque as cavalgaduras daquela banda em viagem acelerada de algumas horas fraqueiam e cansam, não podendo absolutamente se medir em fôrças com as nossas.
Naturalmente esta superioridade lhes vem da alimentação ou do clima; pois que as do Piauí, que ali são de péssima qualidade, basta passarem um ano nesta Província para se tornar iguais aos que nascem aqui.
Maria Graham, no seu Journal of a Voyage Brazil, quando passou em pernambuco disse: “It is astonishing to see the weight brough from two and three hundred miles distance, by the small andslight very swift horses of the coutry.”
Estas palavras devem se entender dirigidas às cavalgaduras do Ceará, visto como em espécie para o serviço de transporte e dos engenhos.
Para confirmar o que acima disse relativamente à cavalgaduras do Sul,  a mesma  Graham, quando no Rio de Janeiro escreveu ainda no referido jornal: “these animals are rather pretty at Rio, but far from strongs.
Com efeito, é admirável que um animal dêstes em viagens de meses se conserve nutrido e forte, apesar da falta de pastagem no tempo sêco, tendo apenas uma ração de milho.
Quem viajou pelo Centro é que pode avaliar da energia de que são dotados êstes camelos dos sertões do Ceará.

***

Da palestra que de ordinário se sustentava tôdas as tardes em nossa casa, fiquei sabendo que é nesta município onde se encontramas mais terríveis cobras-de-cascavel, pois que falecia quase irremediàvelmente aquêle que era delas mordido; mas depois que para aqui se remeteu o permanganato de potássio, as injeções têm sido feitas com tanto proveito que ainda não se perdeu um doente a quem se tenha aplicado o benéico medicamento.
Foi um grande serviço que o Dr. Raimundo Batista de Lacerda prestou, com a sua sábia descoberta, aos pobres sertanejos, entre os quais o terrível ofidio todos os anos fazia grande número de vítaminas.
O permanganato tem levantado moribundos, e tal é a sua eficácia, que vai robustecendo a confiança de se poder com vantagem opor um antídoto contra o maior inimigo do homem e dos animais da Província.
Nós que éramos mais perseguidos dêsse horroroso flagelo, devemos ao Dr. Lacerda grande soma de reconhecimento.
Mil graças ao ilustre benemérito.

***

No domingo, 7 de dezembro, fui honrado com uma visita dos libertos residentes na vila, vindo à frente o prêto Sebastião, escravo de Tomás Pompeu de Sousa Magalhães.
Sebastião disse algumas palavras cheias de entusiasmo, relatando os feitos heróicos da Sociedade Cearense Libertadora, e terminou me felicitando pelos pequenos serviços que prestei naquela gloriosa cruzada.
Não tinham suas palavras, é certo, a correção da frase, nem beleza de eloqüência; mas naquele aranzel de idéias, que eu tinha generosidade bastante para conhecer, o que havia era gratidão daquelas almas simples arrancadas há pouco da escravidão.
Recebi-os com a maior efusão da alma, e a fé que poucas vêzes me tenho sentido tão feliz.
Pobres coitados, saídos da infâmiado cativeiro, êles se expandiam diante de um amigo, que sempre se condoeu de sua sorte e que jamais cansou de advogar o seu direito.
Não era uma festa de etiquêta, mas uma manifestação sincera de corações agradecidos.
Eu abracei a todos como um louco que sou pela liberdade, e êles se retiraram significando-me sua amizadade e reconhecimento.
Santa Quitéria,que progrude à medidad de suas fôças, ao passo que os distritos vizinhos estacionam ainda em conseqüencia dos abalos da sêca, quando outra vantagem não tenha que distinga, sobeja-lhe motivo na glória de seus filhos.
Entre outros é dos mais distintos o Professor Joaquim Catunda, nossa mais sólida e mais variada ilustração.
Ninguém há que desconheça ser o ilustre cidadão tão instruído quanto modesto.
Dos que se aplicam a estudos sérios entre nós, é êle incontestàvelmente o mais adiantado e incansável cultivador.
Em verdadeira oposição às suas idéias, rendo todavia o mais sincero preito ao seu grande talento, tanto mais espontâneamente quando reconheço que é êle dos poucosque lutam com a indiferença de seu tempo para enobrecer a sua prática, entregando-se sem descanso ao cultivo das letras e ciências.
Sinto e sinto profundamente, porém, que amigo como é da Província, descreia do futuro dela, não a considerando senão como uma terra pobre de recursos e por conseguinte impossibilitada de enfrentar com as outras suas irmãs, ainda mesmo dotada de extraordinários melhoramentos como vias-férreas , açudes, etc.
Não; respeito muito as opiniões do ilustrado professor, mas discordo do seu pessimismo, e alimento robusta convicção de que, se não por seus recursos naturais ao menos pelo desenvolvimento da indústria, ela se manterá no pé de prosperidade a que tem direito de esperar da energia do povo cearence.
Quem soube devassar as insólitas regiões do Amazonas tão célebres em perigos e mortalidade, que outro povo não seria capaz de explorá-las, tem coragem para levantar a terra do berço, dadas certas condições mais favoráveis.
Não deve desanimar quem sabe que de ingrata ilha de pescadores, tornou-se a Grã-Bretanha o empório do comércio do mundo e a rainha dos mares.
Ainda mais: quando outra província favorecida de todos os dons da natureza, como Maranhão por exemplo, cai em decadência, acabrunhada pela dívida, com minguada receita, quase metade da que produz esta, tão perseguida das calamidades da sÊca, que no entanto nada deve, não é fora de propósito acreditar que a atividade de seus filhos possa criar recursos que a elevem ao apogeu da glória e do engrandecimento.
Falta-nos um pouco de patriotismo e de instrução, e no dia em que forem admitidos os melhoramentos aconselhados pela ciência na agricultura e indústria pastoril, que desaparecerem para sempre a rotina e sistemas primitivos adotados pela ignorância até hoje em todos os gêneros do trabalho humano; que fôr conhecida a nossa riqueza mineral que ainda se esconde n seio da terra à falta de conhecimentos práticos e aproveitadas outras fontes de receita que a experiência há de lembrar, então muito contra a opinião do ilustrado Sr. Catunda, a Província se erguerá da ruína a que reduziu o atraso dos nossos antepassados para próspera e feliz superabundar em meios de se enriquecer e nada invejar das outras, que confiam de mais na uberdade de seu solo.
Elas têm as dádivas da natureza, nós temos o esfôrço humano que reage contra o gêlo dos pólos e edifica cidades nos areais do deserto.
Eu penso assim, e traço aqui esta página convencido de que no futuro se reconhecerá que predisse a grandeza desta terra queria.

***

Chegou afinal o dia 22 em que devia deixar Santa Quitéria para tomar o caminho de sobral.
Incômodos de saúde havam-me feito ultrapassar o prazo marcado para esta localidade, por isso devendo ressarcir o tempo perdido, de véspera despedi-me dos amigos com especialidade do Professor Manuel Alexandre e sua amada família, que tanto tinha penhorado com sua extrema bondade e repetidas provas de afeição e delicadeza.
Encontrei naquele modesto lar muita virtude e felicidade.
Meus sinceros votos pela continuação da paz serena que reina entre criaturas tão estimáveis.
Ao abraçar o impertubável Tomás Catunda, presenteou-me ainda êle, para minha coleção, com um machado de diorito, trabalho dos índios.
Conservo-o como uma lembrança de sua preciosa amizade.

***

Falando verdade, foi com uma espécie de saudade que vi desaparecer atrás de mim, ainda encobertas pelas sombras da noite, as casas da vila. Quando o sol se mostrou acima do horizonte, tínhamos andado cêrca de 18 quilômetros.
O caminho é mais ou menos acidentado, dominando nos altos as sabías (Mimosa caesalpiniaefolia) e nos vales as teribintáceas aroeiras.
Marcava meu relógio oito horas quando ao chegar ao cimo de uma colia, retive o passo para admirar duas pirâmides altas, agudas, de rocha nua, que surgiam à nossa direita, e são conhecidas pelo nome de Picos.
Êstes serrotes que se avistam na distância de 96 quilômetros, são célebres, porque em vários anos têm ardido, e referiu-me Antônio Guida que seu pai lhe afirmava tê-los visto iluminados, durante muitos dias.
Nêles se encontra bastante salitre e uma gruta que não foi ainda explorada por apagar-se a luz dos fachos à falta de ar.
Pouco adiante mandei fazer alto e arranchamo-nos de baixo de uma umbrosíssima oiticica, à margem esquerda do rio Groaíras.

***

Partimos às três horas.
O mesmo terreno, a mesma mata; e não longe do rio que passa aqui com barrancas elevadas a fazendo S. Jorge, mais ou menos pitoresca pelo vasto e desassombrado horizonte que descortina.
Daí em diante de um e outro lado da estrada, em certas distâncias, vê-se insignificantes casebres, abertos às intempéries e cercados de arbustos cansados de reagir contra a teima da foice destruidora e brutal.
O crepúsculo ia se fundir em noite, quando deixamos à direita os restos de uma casa incendiada.
Neste lugar, diz Antônio Guida, deu-se há anos uma cena das mais lutuosas.
Um marido ultrajado assassinou a espôsa e o seu cúmplice, deitou fogo à casa e mudou de terra.
Pobre Francesca de Rimini sacrificada às iras de outro Lanciotto mais cruel, não teve um Sílvio Pellico para cantar-lhe a desventura, ou Dante para torná-la sconsolata no seu livro imortal!
É triste a solidão dêste descampado, e o vento que passa gemendo nas ruínas parece entoar uma nênia sentida sôbre a tumba dêsse amor tão desgraçado.

***

Já  tarde chegamos ao pajé, encontrando felizmente bom agasalho para a noite na fazenda do Sr. Joaquim Faustino da Rocha.
Ao outro dia fui visitar a fonte termal, único móvel que me trouxera a êstes sítios com grande desvio do meu itinerário.
A alguns passos da casa, em meio de uma várzea despida de vegetação, rebenta êste ôlho-d’água, célebre por suas qualidades especiais.
Um telheiro cobre o pequeno tanque feito de pedra e cal, com um metro de largura, dois de comprimento e pouco mais de um e meio de profundidade, o qual é guardado por forte estacada.
A água que sai dêste, lança-se em outro também deito de pedra e cal com maiores proporções, mas completamente desabrigado, sendo notável a diferença da temperatura d’água do primeiro para a do segundo.
O ar ambiente pela manhã era de 26° Reaumur, e logo que mergulhei o termômetro o mercúrio elevou-se a 35°.
No outro tangue a temperatura desceu para 28°.
As águas são azuladas sem sabor particular e um tanto pesadas.
Foi-me impossível fazer outras experiências sôbre as virtudes desta fonte, e creio mesmo que só uma análise qualificativa e quantitativa minuciosa poderia revelar os princípios de que se compõem sob a ação dos reagentes químicos, se bem que Mérat, Delers e outros entendam que por mais cautela que se empregue no enxame dessas águas, o resultado científico difere sempre da verdade da natureza.
Por esta ocasião tomavam banho diversas pessoas acometidas de reumatismo e moléstias de pele.
De um, que ai residia cêrca de dois meses, soube que havia conhido melhoras consideráveis, e esperava retirar-se em breve completamente restabelecido.
Os moradores afirmam que grande é o número dos curados por virtude das águas das fonte termal.
Nas condições atuais, se não se pode crer, também não se pode duvidar.
Quem sabe?

***

Visitada a celebridade do Pajé, passamos adiante.
Não posso esquecer a agradável impressão que me deixou o lindo carnaubal que se estende à esquerda enquanto dura a planície.
Magnífico!
Nesta jornada observei o processo empregado pelos sertanejos na extração da cêra vegetal.
Rasgam repetidas vêzes com uma faca os olhos mais tenros do pecíolo à extremidade, sendo em seguida expostos ao sol, e logo que murcham, agitam-nos batendo sôbre um pano ou couro.
Nesse movimento despega-se um pó sêco, pulverulento, côr cinza, que exala cheiro delicado e agradável.
Depois é levado ao fogo para formar a cêra, que constitui um importante ramo de comécio na Província.no último ano se exportou para o estrangeiro 386.259quilos, cujo impôsto montou a 7:129$030 réais, sem contar 6.280 ½ de cêra em vales que produziu 129$817 réais.
Não levo em conta a consumida na Província.
Apesar de sua perfeição, parece que seria conveniente lembrar um meio de corrigir os defeitos de que se ressente, tais como côr amarela e rigidez vidrenta.
Misturada com a amêndoa da andiroba (Miristicae sp(21) que iguala em propriedade ao sebo animal, talvez que desse em resultado uma cêra alva e branda mais apropriada à iluminação, e portanto de muito mais vantagem.
Nada se perdia com fazer a experiência.

***

Depois de 30 quilômetros de viagem serviram-nos ainda de rancho as oiticicas no lugar Juá.
Durande a travessia da manhã admirei a quantidade de abelhas que fabricam colmeias nos ramos das árvores e pelo cão.
Os rapazes me trouxeram mel bastante para o almôço.
Eu já havia notado a abundância desta deliciosa substância em todo sertão, que no entanto se perde desaproveitada por falta de conhecimento de apicultura que tão bons resultados têm dado para os Estados Unidos, Rússia, etc.
Apesar do imenso estrago das abelhas e não menos das árvores onde fabricam o mel, em 1846 a Província chegou a exportar 32.745 quilos de cêra no valor de 5:850$440 réis.
Se continuasse a ter preço êsse produto, por certo a ignorância já teria acabado com a raça das nossas abelhas.
Entretanto, aproveitada convenientemente esta indústria, incalculável devia ser também a sua renda.
É sabido que os Estados Unidos produzem em mel e cêra de abelhas mais vantagens que, no nosso País, a colheta do açúcar ou do algodão.
Mr. Harbinson, da Califórnia, tira das abelhas uma renda líquida de 25.000 dólares, cêrca de 45:000$000 réis.
Poucos fazendeiros de café do Rio e S. Paulo contam com igual benefício.
O Capitão hetherington, de Cherry Valley, no Estado de Nova Iorque, vende anualmente cêrca de 44.000 quilos de mel das abelhas, que lhe produzem perto de 42:000$000 dólares ou mais de 40.000 contos de nossa moeda.
Ora, à vista dêstes dados é fácil de acreditar que se houvesse entre nós certa aplicação neste ramo de indústria, lucrariam os cultivadores, pois que temos boas abelhas e florescência das árvores em todo ano.
O volumezinho Cultura das Abelhas, por Paulo Sales, publicado há pouco no Rio de Janeiro, contém regras e conselhos sôbre o trato e aproveitamento do mel e cêra dêsse valioso inseto.

***

Apanhando algumas abelhas para a coleção que pretendo formar de todos os himenópteros melíficos da Província, Antônio Guida me pede para explicar-lhe os segredos do seu modo de trabalhar.
Vali-me do que escreveu Swammerdam, que o foi primeiro que, por uma anatomia interna, estabeleceu a verdade a respeito delas, e não menos das admiráveis observações de Reaumur e Huber.
De tôdas as sociedades que formam os animais, as das abelhas é a mais perfeita, não só por sua duração, como pelos trabalhos que executam, cuja perfeição surpreende o espírito humano.
Elas vivem em enxame, e cada um compõe-se de três sortes de indivíduos.
A abelha-mãe, maios que as outras, é exclusivamente encarregada de propagar a raça; em consideração às suas augustas funções fica dispensada de todo trabalho servil.
Os machos ajudam a conservação da espécie, e não fazem outra coisa.
Êstes são em número de 1.500 por colmeia.
As perárias ou neutras, menores que aquêles e mais numerosas, representam as fôrças vivas da sociedade.
Constituídas essencialmente para o trabalho, e não conhecendo as doçuras da maternidade, são encarregadas das provisões, da educação dos filhos e da defesa da casa, visto como muito ao contráriodos machos são munidas de aguilhão.
Seu número ordinàriamente é de 15.000 a 30.000; vêem a grande distância, e seu olfato sutil as guia a dois ou três quilômetros para as flôres preferidas.
Em uma nova colmeia, a abelha-mãe ou mestra, como entre nós se chama, seis ou sete dias depois de sua última transformação em inseto perfeito, por uma bela manha em que resplende o sol, vem fora, rodeia a habitação para ser bem conhecida e depois se lança nas regiões do ar, onde volteiam inúmeros zângãos.
Regressa pouco depois dêsse pesseio fecundada por tôda a vida.
No dia seguinte começa a pôr nas células ordinarias ovos de operárias; algum tempo depois ovos de machos, e termina por depor nas células reais quatro ou cinco ovoos de fêmeas ou rainhas.
O desenvolvimento dêsses ovos dá-se rápidamente, assim como a transformação das larvas em ninfas e destas em insetos perfeitos.
A evolução completa das operárias faz-se em 20 dias, a dos machos em 24, e enfim a das fêmeas ou rainhas em 16.
A rainha, como acima ficou dito, não toma nenhuma parte nos trabalhos, nem deixa a comeia, onde as operárias a cercam de cuidados; elas acompanham-na por tôda parte onde vai e alimentam-na apresentando na extremidade da tromba o mel que acabam de colhêr nos compos.
Seu único encargo é providenciar a colmeia, o que executa conscienciosamente.
Quando ela termina a postura, que regula mais de 100.000 ovos, morre, e a colmeia fica sem rainha até que as lervas das fêmeas sejam transformadas; as operárias suportam êsse interregno sem alterar seu trabalho.
A primeira das fêmeas transformadas apressa-se em matar com seu aguilhão as outras ainda encerradas nas células.
Esta herda todos os direitos da rainha precedente.
Quando aos machos, são deixados em paz, se bem que seus serviços sejam inúteis, até o fim da estação, quando escasseiam as provisões.
Nessa ocasião as operárias caem sôbre êles e fazem uma matança geral que dura três dias.
Os arredores da colmeia ficam cobertos de cadáveres.

***

As espécies dos gêneros Mellipona e Trigona, que são brasileiras, substituem perfeitamente a Apis melifica importada da Europa.
Do gênero Mellipona se conhecem 30 espécies do Brasil e não menos de 60 gêneroTrigona. 
As Trigonas têm as asas mais longas que o corpo.
O insuspeito naturalista Mr. Auguste Saint’Hilaire reconheceu a superioridade do mel das nossas abelhas sôbre  o das da Europa, e assim o manifesta a França, onde se trabalha por aclimar as melhores abelhas brasileiras.
A Província possui 26 espécies.
Finda a minha ligeira excursão acêrca dos hábitos e vida do mais curioso dos insetos, saímos  à tarde do Juá, e depois de 24 quilômetros de marcha viemos pernoitar à fazenda S. Félix, do Sr. Capitão José Silvestre Gomes Coelho.

***

Ao romper da aurora pusemo-nos a caminho.
Vinham-se dissipando as sombras da noite e serena claridade dominava a extensão.
A natureza despertava entre sorrisos e harmonias do seu sono reparador.
Uma alegria geral, espécie de vibração sonora, percorria de uma a outra extremidade por onde se despendia a luz.
As aves ensaiavam festivo gorjeio, a aragem sacudia brandamente a ramada com grato arruído, doce aroma exalavam os campos, o céu vestia-se de luz e o ar puro da manhã inundava-nos de inebriante frescura.
Mais 18 quilômetros, e teríamos o descanso de que precisávamos.
Pouco adiante deixamos à esquerda a fazenda Sabonete, importante pelo prédio elegante e assobradado, que a distingue das outras.
A vegetação por aqui consta em sua maioria de paus-branco (Cordia oncocalyx). 
Por todo o caminho encontramos grupos de homens e mulheres que se dirigiam a sobral notando-se que tôdas ou quase tôdas traziam um chapéu-de-sol, que nestas paragens constitui peça indispensável do vestuário de uma sertaneja.
Adolfe dAssier já havia observado a manina dêsse uso entre nós quando escreveu: “Qu’il pleuve du qu’il fasse beau, um veritable brésilien ne sort jamais sans tenir à la mais son chapeau contre le soleil.” 
Nos nossos sertões é exclusivamente atavio das mulheres.
Esta boa gente ia chegando para a missa de meia-noite.
Com pouco assomou do meio da planície a brancura da caseria da cidade, e à sua esquerda em linha de azul o perfil da serra da Meruoca.
Pelo lado do sul e nascente é rodeada por uma cinta de verdura, que serpenteia além, internando-se para o norte.
O sol banhava numa chuva de ouro aquela circunferência cintilante pela irradiação da vidraçaria das janelas dos sobrados e clarabóias das igrejas.
Em conseqüencia da desigualdade da estrada que atravessa um terreno sensìvelmente acidentado, sumia-se a cidade para aparecer de nôvo, como de bordo de um navio se vê os recortes da praia surgirem e se esconderem à medida da agitação das ondas.
Pelas nove horas oferecia-me generosa hospedagem o amigo de infância Antônio de Vasconcelos, capitão do Corpo de Polícia, comandante do Destacamento e Delegado em exercício.

***

Eu tinha ansiedade de ver a cidade e por isso saímos logo a percorrê-la por todos os lados.
Dominava-me agradável impressão, pois que à exceção de Campinas, em S. Paulo, não tinha ainda visto outra cidade central, que se equiparasse a esta em edificação, em tamanho, em asseio.
Assentada à margem esquerda do Acaraú, uma parte ocupa terreno elevado e a outra se estende pela planície, sendo que esta é sujeita à inundação do rio que algumas vêzes chega até o mercado público, situado quase no meio da cidade.
Em 1873 as águas cresceram a ponto de as canoas e botes entrarem por um portão e saírem no outro, e fazia-se pelo rio o transporte das mercadorias daqui até o pôrto do Acaraú.
Tem 19 ruas traçadas em direção de sudoeste a nordeste,
e são: a das Dores, do Rio, do Brejo, do Oriente, do Apolo, do Padre Fialho, do Menino Deus, do Senador Paula, da Aurora, da Boa Vista, da Esperança, do Conselheiro José Júlio, do Comércio, da Cândida, do Rocha, Coronel Joaquim Ribeiro, de José Sabóia, do Marinhoe do Coronel Campelo; 21 travessas: a do Oriente, da Matriz, da Municipalidade, do Moura, da Viração, de Caxias, de S. Fracisco, da Esperidina, da Boa Vista, da Constituição, do Mercado, do General Tibúrcio e Senador Figueira de Melo; sete largos: o da Matriz, do Menino Deus, do Cemitério, do Patrocínio, do Rosário, das Trincheiras e Feira Nova.