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Eu e o Mons. Ximenes

 

 

Deixei Santa Quitéria, indo para Fortaleza, em dezembro de 1952, e o Monsenhor chegou em janeiro de 1953.

Em meados de 1953, voltei a Santa Quitéria, vindo de férias, foi o meu primeiro contato com ele. Naquele ano a imagem de Nossa Senhora de Fátima peregrinava pelo Brasil e tinha estado em Fortaleza ou ia passar por lá. Fiz uma visita a ele e conversamos sobre o assunto, ocasião em que ele expõe sua opinião, dizendo da importância daquele fato para religiosidade do povo brasileiro. Era uma conversa entre dois jovens, pois ele era um jovem sacerdote, com menos de vinte e oito anos e eu um soldado que ainda ia completar dezoito. A nossa amizade nasceu dali, e tudo foi facilitado pela admiração que ele tinha ao meu pai. O Monsenhor valorizava as pessoas independentes de sua condição social ou econômica. Meu pai era um pequeno agropecuarista, residindo na zona rural, mesmo assim, o Monsenhor tinha uma consideração especial a ele, pois via nele um exemplo de cristão, principalmente porque  todos os domingos andava doze quilômetros, a cavalo ou de bicicleta, para assistir a missa.

Em janeiro de 1961 ele fez o meu casamento com a Magaly, foi uma cerimônia simples, pois a avó da Magaly, Dona Mesquita havia falecido, fez o nosso casamento e se alguém falasse em pagamento ele se zangava. Ficamos agradecidos pela cerimônia simples, porém bonita, e assim nossa amizade aumentava.

Quando meu pai e minha mãe completaram 50 anos de casados, o Monsenhor com toda boa vontade e alegria presidiu em 20 de novembro de 1984 a renovação do compromisso de fidelidade e dedicação, ou seja, as Bordas de Ouro. No mesmo ano de 1984, eu e Magaly participamos do Encontro de Casais com Cristo, em Recife, e meu amigo Padre nos mandou uma comovente mensagem.

Em 1986, eu e Magaly, agora acompanhado de um filho, o Arquimedes e de uma futura nora, Fabiana, viemos de Recife para que o Monsenhor celebrasse nossas Bordas de Prata. Na ocasião ele abençoou os futuros noivos, Arquimedes e Fabiana, fazendo umas orações e benções que foi quase um casamento.

Como já disse, o Monsenhor atendia a todos com muita presteza e boa vontade. Uma dada ocasião meu pai tendo vindo à sede do município, foi visitar sua filha, Quitéria Mororó Sales e seu genro Roberto Catunda, ao chegar à residência do casal, deparou-se com sua neta Carlota, filha de Quitéria e Roberto muito doente, Carlota ainda não era batizada, meu pai demonstrou sua preocupação com a possibilidade da menina vir a falecer pagã. Quitéria apresentou as dificuldades, inclusive a falta de espaço na agenda do Padre. Seu Antonio Mororó, o meu pai, dobrou-se em direção a casa paroquial e voltou dizendo, vamos batizá-la agora. Realmente o Padre estava com muitas atividades e de saída para ouvir uma confissão de um moribundo, na zona rural, porém retardou um pouco sua viagem para atender o batizado.

Carlota Mororó Sales foi batizada, eu fui o padrinho, poucos dias depois estava boa, e hoje é uma jovem professora que vem prestando serviços à comunidade.

Na segunda metade da década de 1980 surgiu a noticia que Nossa Senhora estava aparecendo na Serra da Ibiapaba, e o Monsenhor sempre cauteloso e com freqüência sendo solicitado a opinar a respeito e ainda sabendo que eu ia até lá. Foi a minha residência e pediu-me que observasse o que estava acontecendo. Compareci ao local, relatei o que observei, ele concluiu que nada se podia afirmar com a relação à veracidade, e realmente nada foi confirmado, sendo o assunto logo esquecido.

Quando Nazareno, era Interventor do Município de Santa Quitéria, a convite dele, fizemos uma visita ao Monsenhor Ximenes, fomos muito bem recebidos, o Monsenhor mostrou-nos seus livros, os seus trens, e o Nazareno colocou a Prefeitura a disposição da Igreja. O Monsenhor na sua simplicidade agradeceu e disse que nada estava precisando, porém no final, entre outras coisas, conseguimos com o Nazareno, a iluminação da frente da igreja, aquelas lâmpadas pequenas que são acesas por ocasião de datas festivas, e conseguimos também 50(cinqüenta) cadeiras para o auditório Monsenhor Ximenes, que naquela época, era chamado Salão Paroquial.

Um amigo comum que nós tínhamos era o Tomás Figueiredo, e o Tomás no seu primeiro mandato como Prefeito de Santa Quitéria, em 1994, teve uma desavença com um cidadão aqui de Santa Quitéria, chegaram às vias de fato, tendo o Tomás se ferido em uma das mãos, coisa pequena. O Monsenhor mandou um recado para ele, através da minha pessoa, não sei se o Tomás lembra-se disso. O recado era o seguinte: diga ao Tomás que não se exponha tanto, tenha mais cuidado. Esta recomendação continua sendo valida nos dias atuais.

Em setembro de 1994 encontrei-me com o Monsenhor em São José dos Pereiros, durante uma festa religiosa naquela localidade.

São Jose dos Pereiros é um povoado que fica perto de São José dos Mocós. Lá existe uma igreja centenária. Inaugurada em 20 de setembro de 1894. No inicio do povoado eram comuns as brigas entre as famílias de lá. Vejamos o que o Padre Correia Lima diz respeito de São José dos Pereiros:

Capela de São José dos Pereiros: distava onze léguas de Sta. Quitéria. O encarregado era o valente Tomás Catunda Soares (diziam que já tinha assassinado três). Era longe de tudo e de todos. Ali, cada vez que se fazia uma visita à cidade, arriscava-se a vida. Cada visita do Vigário era um montão de brigas. . . Diziam-me que as duas famílias, Soares e Mocó, nenhum de seus membros se podiam encontrar sem briga, e se davam até mortes. Numa dessas visitas a capela, encontrava-me hospedado na casa do Tomás Catunda Soares, quando, à meia-noite, a casa foi cercada por doze homens armados de facas-lambedeira. Era um genro do Tomás Catunda Soares, que era da família Mocó, que vinha matar o dono da casa. Eu passei por um grande susto, mas gritei de dentro da casa: - Meus amigos embainhem as suas facas. O Vigário está presente nesta casa! A hora é de Deus e de paz. Vou abrir a porta, Confio em que me atenderão. O meu sacristão trêmulo e aflito segurava a minha mão, dizendo: - “Padre, por amor de Deus, não se afoite”. Afinal de contas, abri a porta e restabeleci a paz, com a Graça de Deus. Esse lugar era tão perigoso que, numa dessas vezes em que me dirigia para lá, passando em frente à pensão de dona Maria Veado, o Sr. Coletor, um cidadão que tinha vindo transferido de Tamboril, abriu os braços em frente ao meu cavalo, segurou as rédeas e me disse: - “Reverendo, por amor de Deus, volte, não exponha tanto a sua vida.” Eu, porém, tinha que cumprir o meu dever. E que se diga de passagem: todas as viagens do Vigário para essas capelas eram realizadas custosamente a cavalo.

(Vendo a vida passar, Padre Francisco Correia Lima, editado em uma gráfica do Rio de Janeiro, pág’s 79 e 80)

 Voltando ao meu encontro com ele em São José dos Pereiros, lembro-me que durante a missa, na hora homilia chegou um casal que ele tinha que confessar antes do casamento e o casamento seria durante a missa, ele me chamou e me pediu que continuasse a homilia, ou seja, ficasse falando para os presentes, e assim foi feito, não sei se consegui me sai bem.

Após a missa fomos almoçar, antes do almoço ele tomou uns comprimidos, acredito que eram medicamentos para o coração, pois vinha sentido complicações cardíacas.

Levaram ao conhecimento do Monsenhor que ali na localidade de São Jose dos Pereiros existiam muitos casais que não eram casados na Igreja, por que não disponham de condições financeiras para pagar as taxas do casamento. O Monsenhor mandou que relacionassem todos eles, que eram cerca de 40 (quarenta) casais, e prometeu que voltaria dentro de trinta dias para realizar os casamentos, dispensando todas as taxas. Infelizmente antes dos trinta dias o Monsenhor faleceu.

O Monsenhor tinha uma atenção para comigo que acho que não merecia.  Em uma determinada ocasião, antes de uma missa, convidou-nos, eu e Magaly, minha esposa, para assistirmos as missas lá de cima do Altar, fui algumas vezes, não todas porque Magaly não queria ir.

Sou Ministro da Santa Eucaristia, formalmente a partir de 1995, porém quem primeiro distingui-me com a honra da distribuição da Santa Eucaristia foi monsenhor Ximenes.

 

Sua Última Missa

No dia 04 de outubro de 1994, mais ou menos às dezesseis horas, eu encontrava-me no colégio Manuel Rufino, participando da apuração das eleições daquele ano e a Magaly estava em casa, quando ouviu a chamada para missa e resolveu participar daquele EVENTO RELIGIOSO. A Magaly relata que durante a homilia o Monsenhor foi interrompido por duas senhoras daqui de Santa Quitéria, que o questionaram com relação ao seu comportamento, a sua conduta como sacerdote, diziam as referidas senhoras que ele (Monsenhor) rezava pouco e outros insultos foram proferidos.

Num banco mais atrás, na nave principal da igreja, a Socorro Catunda, conhecida como Socorro do Misto, esbravejava dizendo, vocês vão matar o Padre, ele está doente.

Terminada a missa o Monsenhor caminhou em direção a Casa Paroquial, sua residência, lá chegando sentiu-se mal. A Dra. Elizabete foi chamada e ao chegar deparou-se com ele já sem vida.

Durante o velório compareceu uma grande multidão, uma demonstração de quanto o Monsenhor era querido e admirado pela maioria da população.

Foi sepultado na Igreja Matriz de Santa Quitéria, e lá no Céu continua fazendo o bem por nós que estamos aqui na terra. A prova disto são os ex-votos e depoimentos que existem no Museu, que foi criado em sua memória.

Deus escreve certo por linhas tortas, se aquelas senhoras não tivessem agido da maneira acima relatada, o Monsenhor não teria falecido no dia de São Francisco. Sei que ele as perdoou. Elas foram apenas instrumentos para que os fatos acontecessem.